gente sente só a matéria que saiu na revista
bravo mandada a mim pela madame K ' a perversa'.
nem me venham com aquela históra de gente ignorante ( independente do grau de escolaridade) que detesta ler: é um pequeno texto que vale ser analisado. e se vc acha que música é só coisas gringas 'de qualidade' decididamente vcs não conhecem a titia....sente só:
"Existe luta de classes na música popular brasileira, afirma o historiador Paulo César de Araújo, no importante ensaio Eu Não Sou Cachorro, Não ? Música Popular Cafona e Ditadura Militar (Ed. Record, 462 págs.), que expõe um nó cego na nossa historiografia: o descaso para com a música ?cafona? ou ?brega? que fez enorme sucesso entre 1968 e 1978, período de vigência do AI-5. Amante do cafona, Araújo voltou-se contra a crítica, argumentando que ela tem sido mais impiedosa com os músicos bregas do que foi o próprio regime militar. ?Tudo o que não era samba ou experimentação fica de fora do ouvido da crítica. Falta uma visão mais ampla.? Eis a razão por que duplas bregas como Zezé di Camargo e Luciano não encontram receptividade entre os críticos, ainda que algumas de suas canções possuam qualidade. Os críticos não os ouvem, nem querem fazê-lo. ?É um preconceito de classe que se expressa no de gêneros?, diz. O livro originou-se de sua dissertação de mestrado em Memória Social e Documento, pela Uni Rio, após ter seu projeto recusado pela Unicamp, ?porque os intelectuais de Campinas sentem enjôo quando se fala em música brega?. Em suas pesquisas, descobriu que a Anistia só não aconteceu para os músicos cafonas e o cantor Wilson Simonal, que passou à posteridade como dedo-duro. ?Há um silêncio da história em relação a eles. Até mesmo José Ramos Tinhorão, um crítico consciente dos movimentos sociais, ignorou os bregas. Tinhorão não deixa de ser um pequeno-burguês defensor das raízes do samba, que não tem nada a ver com a maioria da população brasileira.? Por ser notória a alienação política dos cafonas no período (Paulo César conta que Ravel, ao ouvir pessoas comentando sobre o AI-5 na época, pensou tratar-se do ?nome de um novo grupo vocal de samba, tipo MPB4?) também surpreende a revelação que músicos como Waldick Soriano e Odair José também foram censurados pela ditadura. Quanto aos colaboracionistas do regime, ficaram com esta pecha somente os cafonas, como Dom & Ravel, com Eu Te Amo, Meu Brasil. ?Esses foram destruídos. Já outros que colaboraram foram perdoados mais tarde.?
São os casos de Zé Ketti, Elis Regina, Paulo Sérgio Valle, Leci Brandão, Os Três Moraes e Jorge Ben. ?Enquanto Agnaldo Timóteo defendia o homossexualismo cantando Vergonha de Mim em 1970, Jorge Ben exaltava a ditadura compondo para Simonal o balanço Brasil, Eu Fico; e Leci Brandão negava a existência da negritude com o samba Nada Sei de Preconceito. E Os Três Moraes popularizaram o refrão: ?O negócio é colaborar?. O que eles são mais que Dom & Ravel?? O livro estimula a reflexão sobre esse gênero de produção musical e sobre os padrões estéticos que conduzem os críticos musicais. Diz ele que a crítica de música brasileira tem-se pautado desde os anos 60 por dois critérios de validação: a tradição e a vanguarda. A música que pertence a uma ou outra área, ou que funde ambas, merece crédito, e a que escapa às tarjas é esquecida, ainda que tenha feito parte da história do consumo de todos nós. Por que a MPB recebe na sua sigla a palavra ?popular?, em contraposição à música ?erudita?, enquanto que os cafonas e seus rebentos, os bregas, são os verdadeiros responsáveis pela genuína música para a massa? Na sua poética de exageros e contrastes, os bregas podem alcançar momentos sublimes. Alguns boleros de Waldick Soriano, como Tortura de Amor; e sambas de Benito di Paula, como Retalhos de Cetim, se revestem de um toque de inspiração. E Zezé di Camargo e Luciano cantam baladas palatáveis e não inferiores a certos sambas de Martinho da Vila e Zeca Pagodinho. Nessa luta de classes da música, os cafonas são mendigos e o samba ostenta o manto de príncipe. Araújo diz que isso é coisa de intelectual. ?Intelectual gosta de samba por consciência culpada. Quer purgar os pecados contra os negros consumindo candomblé.? O livro nos leva a pensar que talvez nós, críticos, tenhamos errado ao ignorar solenemente a ?música do povo? e, com isso, influenciamos músicos e leitores ao longo dos últimos 40 anos com a distribuição das tarjas ?vanguarda? e ?tradição?. Talvez pensemos que o ?povo? mereceria música melhor e nos tenhamos pautado apenas pelo critério da qualidade musical. O ensaio de Araújo ajuda a balançar o edifício aparentemente sólido da crítica, e mostra que os bregas precisam ser respeitados."